segunda-feira, 21 de abril de 2008

trecho de texto de ELENILSON NASCIMENTO sobre o Sem Lugar


"agradou-me a atenção ao quotidiano e ao efêmero, que convive com discretos apelos ao eterno (“Tenho 40 apesar dos 25 às vezes 70”); agradou-me a modulação coloquial (“Sua consciência sã, sua farmácia de Lexotan”) e o fôlego versificatório (“Pro-funda víscera morta”) e os “cacos de vidro andantes”, sabiamente pontuado, sobretudo por parênteses; agradou-me também a permanência de uma estrutura poemática (dissonantes), no entanto submetida a flutuações ou variações que sugerem a do curso dos dias, a escrita alusiva, sintética, sincopada e elíptica e agradou-me, sobretudo, a atitude dominante do poeta Spinelli na sua relação dialogante e orquestrada com as coisas, os homens (e as mulheres).

Este jovem poeta, que desde a publicação de “Des destinado” nos “Poemas Dispersos”, tinha-nos já surpreendido pela qualidade de suas linhas – e, tanto quanto nos lembramos, riscados para este livro, onde há aspectos a ter em linha de conta, pois “era hora de pagar a conta”. Seus poemas vivem de uma contraposição (“Pai sem dedo, mãe sem carne, filho que ninguém sabe”) – instalada no corpo íntimo de cada texto – entre o lado, passe a expressão, mais depuradamente poético (o conjunto de imagens que de imediato associamos a verdadeira e gratificante arte poética – lembre-se do gozo gostoso lá do terceiro parágrafo!) e um tom marcadamente coloquial com ancoragem no quotidiano (sejam lugares ou moradas, conhecidos ou desconhecidos, amigos ou amores, casas ou as suas memórias – “De mim ninguém conhece 1/5”.Mas, de fato, dito de outra maneira, talvez mais escancaradamente esclarecedora: há em Spinelli um constante invocar da memória de pessoas ou coisas que se situa ou no plano do amor ou que enviam para o que figuramos ser a morte (“Eu carne de pescoço, carne e osso e osso e osso”) – adoro esses tipos de poemas.E, diga-se em abono da verdade, sintomático este último excerto: o poema como que se suspende – a sua conclusão fica nas margens (sombras) dos versos ou do que aí podemos desejar ver (“Em todo santo lugar, sou derradeiro estrangeiro: cão clandestino que caga em jardins alheios”). Repare-se: a suspensão do poema é, por um lado, sinal de morte – mas pode ser, também, tão só o desejo de o retomar incessantemente seja pela possibilidade da escrita seja pela memória que aí quisermos instalar. Em suma, Spinelli é mais um dos vários talentos que estão saindo do casulo, tirando os escritos das gavetas e lançando livros. E que seja muito bem-vindo, pois como ele mesmo disse “poeta não tem de ser seda: que seja CRESPO; poeta não tem de ser sensível: que seja VIVO; poeta não tem de ser ancho: que seja SECO".
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Elenilson Nascimento é escritor, poeta, professor de literatura e colaborador em diversos sites, publicando críticas e comentários sobre temáticas variadas do cotidiano, comunicação, literatura etc. É baiano de Salvador, onde reside.
+ sobre Elenilson Nascimento em:
http://orebate-elenilsonnascimento.blogspot.com/
lá é possível encontrar o texto sobre o Sem Lugar na íntegra.

sábado, 19 de abril de 2008

poema de RÉGIS BONVICINO

Entre

motores e ruídos
( pio
dissonante

e seco
estilhaço )
o vôo do pássaro
cria

uma nova hipótese
de espaço





in: Régis Bonvicino. Ossos de Borboleta. Editora 34: São Paulo, 1996.

sábado, 5 de abril de 2008

poema de LAU SIQUEIRA

COMPOSIÇÃO CASUAL


I

no mármore da mesa
dois livros
um pote de cerâmica
cajus maduros e um
esplendor de orquídea

II

estirando
espinhos para o mundo
um cacto resiste


in: Lau Siqueira, Texto Sentido. Recife: ed. do autor, 2007.
+
http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/

sábado, 15 de março de 2008

+ poema do SEM LUGAR

vulnerabilidade
progressiva





às vezes
tenho vontade
de explosão

: KAMIKAZE
que arde

mas o petardo
diz :

- covarde
não!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

POEMA do SEM LUGAR

foto de adriano batista
ALOJAMENTO

mobiliou meu corpo
e foi viver na rua

as paredes pintadas assim
não me agradam

teu ventre vacilante
ainda é meu quarto
quando sonho tua cama

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

POEMA do SEM LUGAR

TEXTURA




todo corpo
é uma super-superfície
lugar-centro-lugar

nada plano
plena pele densa

para se visitar
com calma
em valsa lenta

se safar

POEMA do SEM LUGAR

DESVÃO




todo merecer
de outra boca

ignóbil estopa que
limpa outra
leve tão rouca

sem vão,
um paiol de saliva

sem chão,
ambas:
a língua