quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

POEMA do SEM LUGAR

foto de adriano batista
ALOJAMENTO

mobiliou meu corpo
e foi viver na rua

as paredes pintadas assim
não me agradam

teu ventre vacilante
ainda é meu quarto
quando sonho tua cama

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

POEMA do SEM LUGAR

TEXTURA




todo corpo
é uma super-superfície
lugar-centro-lugar

nada plano
plena pele densa

para se visitar
com calma
em valsa lenta

se safar

POEMA do SEM LUGAR

DESVÃO




todo merecer
de outra boca

ignóbil estopa que
limpa outra
leve tão rouca

sem vão,
um paiol de saliva

sem chão,
ambas:
a língua

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

TEXTO do POETA ANDRÉ RICARDO AGUIAR sobre o SEM LUGAR

UM RIO SÓ MARGEM

Poesia tem seus lugares. Calha de ser no espaço que o poeta elege, mas atenção: esta eleição é uma escolha pelo precário, porque toda linguagem que se eleva a uma exceção toca-se por este signo. O poeta mesmo simula, do lugar nenhum o seu algo precioso: dizer este mesmo precário com a melhor das más intenções. O mau/bem intencionado aqui em questão é Vamberto Spinelli Júnior com o seu Sem lugar, premiado e editado pela Editora Universitária. É uma voz que já começa segura na lírica paraibana, dando-se ao luxo de estabelecer uma pequena obra que dialoga por dentro. Avança como pode, poema a poema. E deixa claro desde a entrada: onde moro ninguém / mora. O índice que usa é a desinência “des”. Lembrando o axiomático “desfazer é melhor que tecer” de Orides Fontela.

Essa consciência da falta perpassa a maior parte dos poemas. O sem lugar da existência também é o estatuto da não-herança, da não-identidade. O que é possível se agarrar a algo está mesmo no desespero calmo, a seco. O tempo que se evapora no sintomático “.casa de vapor”:


ontem morei
100 dias na minha velhice

hoje não me permito
alterar minha infância
nos próximos 30 segundos

O livro trata desse abuso da carência existencial com relativo senso epigramático. Vamberto diz com frases e imagens sem rodeios, quase descarnadas. É óbvio que o projeto soa coerente. Sobretudo nas lições intertextuais em que, mesmo vacilantes em alguns momentos, cria estratégias à beira do excessivo uso, mas ainda valida pelo senso de construção – o que é raro na maior parte das estréias. Nota ironia e o uso do trocadilho (cuidado, parcimônia também é arte!) ao gosto do público. Mas dá o salto e assume:

.para sui e cida

de tanto morrer antes
foice veloz no pescoço
de vez


Na segunda parte, “.existir”, o arco vai da matéria da vida à metalinguagem, dialogando ao deus-dará com temas caros e precedentes. Vamberto se detêm mesmo nesses pequenos temas que, no conjunto, criam uma identidade própria e que com alguma sorte, reage como densidade poética. Algumas construções chamam a novidade sem medo: “e uma maré de pernas / sem bússola”, “o homenageado não veio / / seria deus?”, “poesia: gesto extinto em si”.

Vamberto Spinelli tem muito que dizer. Nota-se por esse doar imagem, por alguma fisgada que tanto oferece o anzol quanto o puxa sem espera por peixe. Os poemas dizem os mesmos temas de sempre, mas, com muita freqüência, o ar parece lavado dentro do livro: há mescla de estratégias construtivistas com inquirições pessoanas, e volta e meia a lírica atinge aquele interrogatório volátil próprio dos que usam a poesia como espelho, mesmo que baço. O livro tem mais qualidades que defeitos e vale dizer: conquista, num terreno avaro de geografias, um lugar. Mesmo que não se possa chamar de chão, mas areia movediça. Buscar, parafraseando Fontela, é melhor que encontrar.
Este texto foi publicado no Jornal A União, em 21 de dezembro de 2007. Está disponível também em http://andrericardoaguiar.blog.uol.com.br/.

ONDE ENCONTRAR

dados do livro
editora: editora universitária/ufpb
ano: 2007
preço: R$ 10,00
nº. de páginas: 64
formato: 17 x 12

A publicação do livro resulta do Prêmio Novos Autores Paraibanos, versão 2006. Tem apresentação do poeta e jornalista Linaldo Guedes e trabalho gráfico de Mônica Câmara


onde o SEM LUGAR pode ser encontrado:

SEBO CULTURAL
Av. Tabajaras, 848 – Centro

LIVRARIA PREFÁCIO
Shopping Tambiá – Centro

ALMEIDA LIVRARIA
Shopping Sul – Bancários

LIVRARIA PARAIBANA
Campus I – Universidade Federal da Paraíba

em breve (a partir do dia 21 de janeiro) também no stand de Ely na Praça da Alegria, CCHLA, UFPB.

> também com o próprio autor
vspinellij@yahoo.com.br

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

POEMAS do SEM LUGAR


para começar deixo dois poemas


equipamentos



em termos concretos
possui somente:

sua consciência sã

sua farmácia de lexotan




inda sim



poesia: gesto extinto em si?

verso verbo arma bala?

qual seja
querer ser
poema
fissura

expostas fraturas